FÉRIAS

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As férias ensinam a olhar, perguntar, pensar

 

Tempo de férias: tempo para olhar, ou melhor, para contemplar.

Sim, porque habitualmente olhamos as pessoas ou as coisas, mas não as vemos.

Não temos tempo para deter o olhar, habituado a responder ao estímulo de alguma coisa

que o atrai de maneira repentina: um semáforo, um placar publicitário…

Ou então olhamos aquilo que nos é dito para olhar: os nossos olhos são atraídos

por aquilo que foi pensado para nos seduzir,

para chamar a nossa atenção, para acender o nosso desejo.

Não é por acaso que, muitas vezes, constatamos «não vi, não me dei conta»,

só porque uma coisa não se impõe ao nosso olhar.

As férias são um tempo propício para exercitar o olhar:

sobre uma praia ter os olhos abertos para o céu;

deter-se a ver o mar que está sempre a mudar de cor e de forma;

ver como uma formiga transporta uma migalha de pão; observar como é feita uma flor…

É assim que se aprende a “ver com o coração”, como aconselhava o Principezinho.

Então, ao abrir os olhos do nosso coração, podemos dedicar-nos a contemplar,

a ver em grande, e, por isso, a sentir em grande.

Assim se começa a ver verdadeiramente aquilo que existe e vive ao nosso lado,

ainda que muitas vezes não nos apercebamos;

treinamo-nos a admirar e a acolher o inesperado,

o que é desconhecido e diferente daquilo que pensamos. (...)

É preciso, então, encontrar tempo para ficar a sós, no silêncio, e demorar-se nas perguntas que nos habitam.

Se nunca fizermos este “trabalho”, arriscamo-nos a viver à superfície, sem estarmos conscientes,

sem conseguir ler a nossa vida e a avaliá-la nas suas expetativas e nos seus fracassos.

Os latinos diziam que cada ser humano amadurecido deve conseguir “habitare secum”,

a habitar consigo, a escutar-se.

Não é uma operação narcisista,

mas um ato de verdade sobre si e sobre a relação com os outros.

É uma necessidade para agarrar a própria vida nas mãos com um mínimo de lucidez,

e assim aprender a amar-se a si e aos outros com inteligência e criatividade.

Nas férias, dêmos, por isso, tempo à reflexão, ao pensar.

E a quem nos pergunta «o que estás a fazer?», respondamos:

«Olho e penso».

Rara mas extraordinária resposta!"

 

Enzo Bianchi

Para consultar o texto na íntegra, aqui.

descanso