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COMUNICAR COM O CORPO

  • Publicado em segunda-feira, 18 maio 2020 14:16
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Voltar a usar mãos e corpo para viver a comunicação como obra de arte

 

Qual foi a maior renúncia nos meses de “clausura” e de distância exigidas para deter o contágio?

Ao conversar com amigos, ao telemóvel ou nas redes sociais,

desde o início emergiu que a dificuldade maior

foi a de não poder sequer dar a mão a quem se encontrava, muito menos um abraço.

Já nos dias anteriores à “clausura” era requerida esta distância, e, ainda que de má vontade,

sorríamo-nos de longe, elevávamos a voz para nos fazermos ouvir, sem nos aproximarmos.

Não foi fácil aprender de repente a regra da não-proximidade que passa por à mesa na refeição os lugares são afastados,

nenhum abraço, nada de sinais de atenção e confiança que pusessem em ação o sentido do tato.

Por espontânea reação tornámo-nos mais do que nunca digitais para comunicar,

para não nos sentirmos sós, numa espécie de bulimia de contactos, ainda que virtuais.

Paradoxal: negação do contacto corpóreo e doida necessidade de estar sempre “em contacto”,

muito mais do que antes (que já não era pouco!).  

Vivemos, por isso, sem contactos físicos, reprimindo a afeição e a empatia que só o encontro pessoal pode dar.

E fomos feridos por saber que os doentes caminhavam para a morte

isolados e privados da possibilidade de contactos físicos, quando deles mais precisavam.

Tudo isto nos deve fazer refletir sobre o tato, o sentido mais “antigo”,

ativo em cada um de nós desde a condição de feto no ventre materno.

O tato está sempre em exercício para todo o animal vivo.

Cada dia da nossa vida, até ao da morte, quando alguém, tocando-nos, dirá «já não respira».

O tato é recíproco, acende-se graças ao com-tato.

É mediante o tato que realizamos as relações do corpo com o mundo:

o nosso corpo toca e toma alguma coisa do mundo que, à sua volta, é tangível.

E é o tato que, mais do que outros sentidos, atesta a experiência certa.

O tato diz-nos, em particular, onde o outro se situa, próximo ou distante,

tocado ao de leve ou apertado, abraçado; é o sentido que mais nos acende de alegria e prazer nas relações, até à exultação.

Por isso precisamos não só de trocar palavras ou olhares,

mas de sentir reciprocamente os corpos junto de nós, de acariciar ou imprimir um beijo.

No exercício do tato as mãos são a linguagem comum, bem para além das palavras. Qual inefável arte a carícia…

Quando – esperamos que em breve – voltarmos a apertar-nos a mão,

a abraçar-nos e a beijar-nos, procuremos estar conscientes deste sentido e da sua qualidade decisiva para a nossa vida.

Sem demonizar a comunicação virtual, tão útil neste tempo de pandemia,

voltemos a usar as mãos e o corpo para viver a comunicação como obra de arte.

E o coração acompanhe o tato, para que a epiderme viva e vibre graças à arte consciente do tocar,

capaz de iluminar os nossos dias.

 

Texto de Enzo Bianchi adaptado pelo SDEIE. Consulte aqui o texto na íntegra

 

 

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Fotografia de Cotk Photo