A ORAÇÃO VEM DO CORAÇÃO

 

A oração pertence a todos: aos seres humanos de cada religião, e provavelmente também àqueles que não professam nenhuma.

 

A oração nasce no segredo de nós mesmos, naquele lugar interior que muitas vezes os autores espirituais chamam «coração».

A rezar, por isso, em nós não está algo de periférico, não uma nossa faculdade secundária e marginal,

mas está o mistério mais íntimo de nós próprios.

É este mistério que reza. As emoções rezam, mas não se pode dizer que a oração seja só emoção.

A inteligência reza, mas rezar não é só um ato intelectual.

O corpo reza, mas pode falar-se com Deus inclusive na mais grave invalidez.

Por isso, é todo o ser humano que reza, se reza com o seu “coração”.

A oração é um impulso, é uma invocação que vai para além de nós mesmos:

algo que nasce do íntimo da nossa pessoa e se distende,

porque perceciona a nostalgia de um encontro.

Essa nostalgia que é mais do que uma carência, mais do que uma necessidade: é um caminho.

A oração é a voz de um “eu” que anda às cegas, que caminha às apalpadelas, à procura de um “Tu”.

encontro entre o “eu” e o “Tu” não se pode fazer com as calculadoras: é um encontro humano,

e muitas vezes anda-se às apalpadelas para encontrar o “Tu” que o meu “eu” está à procura.

A oração do cristão nasce de uma revelação: o “Tu” não permanece envolvido no mistério,

mas entrou em relação connosco.

O cristianismo é a religião que celebra continuamente a “manifestação” de Deus,

ou seja, a sua epifania.

As primeiras festas do ano litúrgico são as celebrações

deste Deus que não fica oculto,

mas que oferece a sua amizade aos seres humanos.

Deus revela a sua glória na pobreza de Belém,

na contemplação dos Magos,

no Batismo no Jordão, no prodígio das bodas de Caná.

O Evangelho de João conclui com uma afirmação sintética o grande hino do prólogo:

 

 

«A Deus nunca ninguém o viu: o Filho unigénito, que está no seio do pai, é que o revelou» (1,18).

 

 

Foi Jesus que nos revelou Deus.

A oração do cristão entra em relação com o Deus do volto terníssimo, que não quer incutir medo algum aos seres humanos.

Esta é a primeira característica da oração cristã.

Se os seres humanos estavam desde sempre habituados a aproximar-se de Deus algo intimidados,

algo amedrontados por este mistério fascinante e tremendo, se se tinham habituado a venerá-lo com uma atitude servil,

semelhante à de um súbdito que não quer faltar ao respeito ao seu senhor, os cristãos, em vez disso,

dirigem-se a Ele ousando chamá-lo de maneira confiante com o nome de “Pai”.

Aliás, Jesus usa a outra palavra: “Papá”.

O cristianismo baniu da relação com Deus toda a relação “feudal”.

No património da nossa fé não estão presentes expressões como «sujeição», «escravidão» ou «vassalagem»;

mas palavras como «aliança», «amizade», «promessa», «comunhão», «proximidade».

No seu longo discurso de adeus aos discípulos, Jesus diz:

 

«Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe aquilo que faz o seu senhor;

mas chamei-vos amigos, porque tudo aquilo que ouvi do Pai vos dei a conhecer.

Não fostes vós que me escolhestes, fui Eu que vos escolhi e vos constituí, para irdes e dardes fruto, e o vosso fruto permaneça;

para que tudo aquilo que pedirdes ao Pai no meu nome, vos seja concedido».

 

Ora, isto é um cheque em branco: «Tudo aquilo que pedirdes ao meu Pai no meu nome, vos será concedido»!

Deus é o amigo, a aliado, o esposo.

Na oração pode estabelecer-se uma relação de confiança com Ele,

tanto mais que no Pai-nosso Jesus nos ensinou a dirigir-lhe uma série de pedidos.

A Deus podemos pedir tudo, tudo; explicar tudo, contar tudo.

Não importa se na relação com Deus nos sentimos em falta: não somos amigos corajosos,

não somos filhos reconhecidos, não somos esposos fiéis.

Ele continua a querer-nos bem. É isso que Jesus demonstra definitivamente na última ceia, quando diz:

 

«Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por vós».

 

Nesse gesto, Jesus antecipa no cenáculo o mistério da cruz.

Deus é aliado fiel: se os seres humanos deixam de amar, Ele,no entanto,

continua a querer bem, ainda que o amor o conduza ao Calvário.

Deus está sempre próximo da porta no nosso coração, e espera que lho abramos.

E por vezes bate ao coração, mas não é invasivo: espera.

A paciência de Deus connosco é a paciência de um papá e de uma mamã.

Sempre próximo do nosso coração, e quando bate fá-lo com ternura e com muito amor.

 

Ele não conhece o ódio.

Ele é odiado, mas não conhece o ódio.

Conhece só o amor.

Este é o Deus a quem os cristãos rezam.

Este é o núcleo incandescente de toda a oração cristã.

O Deus de amor, o nosso Pai que nos espera e nos acompanha.

 

Papa Francisco | Audiência geral, 13.05.2020 | Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé | Trad.: Rui Jorge Martins

https://www.snpcultura.org/a_oracao_e_de_todos_provavelmente_tambem_dos_nao_crentes.html

 

filho pródigo

Marc Chagall, Le Fils Prodigue sur Toile, 1976.