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NOVOS MODELOS DE AMOR

  • Publicado em quarta-feira, 25 março 2020 11:37
  • Acessos: 482

 

Na Bíblia diz-se que Deus castiga o pecado com flagelos, mas o Cristianismo superou «totalmente» essa visão

 

 

O coronavírus está a mostrar «novos modelos de amor», mas é necessário enfrentá-lo não com medo, que conduz ao terror, mas com temor, que inspira esperança,

como também responsabilidade pessoal, considera o presidente do Conselho Pontifício da Cultura, cardeal Gianfranco Ravasi, que comenta a posição daqueles para

quem o Covid-19 é um castigo enviado por Deus para punir a humanidade pecadora, e sublinha que a crise está a fazer sobressair o essencial em detrimento do superficial.

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Tem uma atitude construtiva. Não tem sequer medo de ser contagiado?

 

Francamente, não, mas a reflexão que gostaria de fazer é sobre o medo:

um fator central na história da humanidade, baseado na distinção entre duas categorias bem separadas:

de um lado está o medo, que é uma emoção primária negativa, produz terror e conduz à irracionalidade quando cresce.

Do outro lado, por seu lado, está o temos, que é preocupação, mas também respeito.

A distinção aparece até na Bíblia, e é uma das declarações que se escreviam nos edifícios sagrados:

«O princípio da sabedoria é o temor do Senhor».

Temor significa, portanto, estar consciente da complexidade da realidade,

que nós não somos árbitros absolutos do ser e do existir.

O temor é uma virtude, e em certa medida uma necessidade

que está a conquistar espaço nestes dias, e que deveria ser de todos.

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No entanto, o que prevalece hoje é o medo…

 

Montaigne dizia: o medo é a coisa de que tenho mais medo.

Entendia-o como um excesso de histeria, porque quando predomina sobre tudo adquire uma coloração negativa.

Sófocles acrescentava: para quem tem medo, tudo são rumores.

O temor, ao contrário, é diferente, porque supõe que haja a consciência da dificuldade e o esforço para a superar.

O temor, no fundo, é uma virtude, portanto um empenho.

O temor, entre outros aspetos, não pode existir sem esperança, e a esperança sem temor.

Só com o medo, está-se sozinho à mercê de um resvalar para o terror.

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Transformar o medo do contágio em apenas temor do contágio não é propriamente uma passagem mental simples…

 

É preciso levar tudo para uma atitude positiva.

Por exemplo, começar a compreender o limite da criatura humana.

A nossa fragilidade. Num período de triunfo da autonomia, da autossuficiência, da tecnologia, estamos expostos a um limite.

Somos frágeis, e a descoberta deste fator não está dada como adquirida.

O desafio dos jovens que desafiam o contágio. Não têm ainda a perceção sapiencial de que não somos eternos.

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Depois há o tema da ciência…

 

E é preciso exaltar-lhe sempre a grandeza por aquilo que consegue efetivamente fazer,

mas é preciso compreender que não pode tudo.

A vacina contra o coronavírus, por exemplo, ainda não foi encontrada.

A ciência tem percursos que não esgotam todas as questões.

A ciência não consegue resolver o medo, o aspeto existencial.

Aqui devem estar mais presentes a cultura e as religiões.

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O que é que esta crise nos está a fazer entrever?

 

Que vemos avançar os novos modelos de amor.

Veja-se a fotografia da enfermeira que adormece, esgotada, sobre o teclado.

É o símbolo da generosidade num mundo tendencialmente egoísta.

Os médicos que arriscam os contágios são um outro exemplo de amor não retórico, mas concreto.

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O vírus não olha ninguém no rosto…

 

É como se se estivesse a criar uma escala de valores melhor. Como quando se tem de enfrentar uma doença grave.

Mesmo que se tenha muito dinheiro e a possibilidade de ter tratamentos melhores, a escala de valores assume outra disposição.

Os afetos, por exemplo, como também a invocação a Deus por parte do não crente. Nem tudo se reconduz à concretização do egoísmo imediato.

Nestes dias há maior preocupação com os familiares, com o cônjuge. Há uma educação que é chamada a paideia da dor.

Saul Bellow repetia que o sofrimento, por vezes, serve para expulsar o sono da razão e o vazio da humanidade.

A banalidade superficial é colocada em crise, e as coisas essenciais tornam-se fundamentais.

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O coronavírus está a esfarelar o tabu da morte?

E de que maneira. Está a fazer-nos compreender que não somos eternos. Somos morredoiros.

Na nossa sociedade, a ideia da morte tinha-se tornado a grande apátrida. Ninguém a queria.

Era até considerado pouco educado falar dela.

A este termo eram preferidos sinónimos, como falecimento, desaparecimento.

Não se podia, depois, fazê-la ver às crianças.

Por outro lado havia a pornografia da morte, isto é, o excesso de imagens que ciclicamente aparecem na internet.

O coronavírus reposicionou a ideia de morte como percurso natural da nossa vida.

Devemos fazer as contas.

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Há fundamentalistas cristãos para quem o vírus é o castigo de Deus.

 

São conceções retributivas que estão na Bíblia.

Deus manda os flagelos porque pecámos.

Mas no cristianismo esta visão é totalmente superada.

Jesus não nos abandona na nossa morte, fica ao nosso lado.

Sempre.

 

ENFERMEIRA

https://www.snpcultura.org/na_biblia_diz_se_que_Deus_castiga_pecado_com_flagelos_mas_cristianismo_superou_totalmente_essa_visao.html

 Franca Giansoldati

In Cortile dei Gentili
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: marketanovakova/Bigstock.com
Publicado em 23.03.2020