REDESCOBRIR O PODER DA ESPERANÇA | CARDEAL TOLENTINO MENDONÇA

 

Que a quarentena não seja só um violento recurso forçado, do qual vemos apenas os aspetos negativos.

Este pode ser o momento para irmos ao encontro daquilo que perdemos; daquilo que deixamos sistematicamente por dizer;

daquele amor para o qual nunca encontramos nem voz nem vez; daquela gratuidade reprimida que podemos agora saborear e exercer

 

 

PODEMOS REAPRENDER TANTAS COISAS

 

Parece paradoxal, mas o tempo presente representa também uma oportunidade para nos reencontrarmos.

Confinados a um isolamento compreendemos talvez melhor o que significa ser — e ser de forma radical — uma comunidade.

A nossa vida não depende apenas de nós e das nossas escolhas: todos estamos nas mãos uns dos outros,

todos experimentamos como é vital esta interdependência, esta trama feita de reconhecimento e de dom,

de respeito e solidariedade, de autonomia e relação. 

Todos esperam uns dos outros e estimulam-se positivamente a que façam a sua parte.

Todos contam. Os cuidados individuais, que somos chamados a exercitar,

não são a expressão de uma fobia ou do interesse próprio apenas, como se destinados

a nos enclausurar na torre de marfim do nosso ego. 

São, sim, a forma de colaborar para uma construção maior,

de colocar os outros no centro, de sacrificar-se por eles,

de privilegiar o bem comum.

Esta é a hora em que podemos, de facto, reaprender tantas coisas.

Podemos reaprender a estar nas nossas casas,

mas também a sentir que depende de nós o nosso prédio, a nossa rua,

o nosso bairro, a nossa cidade, o nosso país, dando substância efetiva a palavras,

tantas vezes destituídas dela, como são as palavras proximidade, vizinhança, humanidade, povo e cidadania.

Podemos reaprender a utilizar as redes sociais não só como forma de divertimento e de evasão,

mas como canais de presença, de solicitude e de escuta.

Sem nos tocarmos, podemos reaprender o valor da saudação,

o estímulo de um cumprimento, a incrível força que recebemos de um sorriso ou de um olhar.

Sem que os nossos braços se estendam na direção uns dos outros podemo-nos abraçar afetuosamente,

como já o fazíamos ou de um modo mais intenso ainda,

transmitindo nesses abraços reinventados o encorajamento, a hospitalidade,

a certeza de que ninguém será deixado só.

Sem nos conhecermos podemos finalmente reaprender a não votar ninguém à indiferença

ou a não tratar os nossos semelhantes como desconhecidos.

Nenhum ser humano nos é desconhecido, pois sabemos por nós próprios o que é um ser humano:

o que é esse pulsar de medo e de desejo, essa mistura de

escassez e de prodigalidade,

esse mapa que cruza o pó da terra com o pó das estrelas.

 

A DISTÂNCIA E A PROXIMIDADE

 

Conhecemos a semântica da proximidade e da distância, e, para dizer a verdade, precisamos de ambas.

São elementos de comprovada importância na arquitetura do que somos: sem uma ou sem outra nós não seríamos.

Sem a proximidade primordial nem seríamos gerados. Mas também sem a separação e a distinção progressivas a nossa existência não teria lugar.

Na linguagem parabólica do livro do Génesis, Deus cria o homem amassando-o da argila da terra e oferecendo-lhe o seu próprio sopro,

mas depois deixa o casal humano a sós no jardim para que a aventura da liberdade possa ter início.

Do mesmo modo, cada um de nós, foi chamado a construir o seu mundo interno no balanço destas duas palavras: fusão e distinção.

E através delas descobrimos, a tatear, o significado do amor, da confiança, do cuidado, da criação e do desejo.

 

 

 DE QUARENTENA A TEMPO GRATUITO

  

 Passamos uma vida inteira a repetir que “time is money” e nem nos apercebemos do custo existencial dessa proposição.

Este pode ser o momento para irmos ao encontro daquilo que perdemos; daquilo que deixamos sistematicamente por dizer;

daquele amor para o qual nunca encontramos nem voz nem vez; daquela gratuidade reprimida que podemos agora saborear e exercer.

Temos de olhar para a quarentena não apenas como um adverso congelamento da vida que nos deixa manietados,

elencando de modo maníaco o que estamos a perder.

Sairemos mais amadurecidos se a aproveitarmos como um dom,

como um espaço plástico e aberto, como um tempo para ser.

 

 

AS HISTÓRIAS DE AMOR QUE ESTÃO A SER ESCRITAS

 No meio da emergência que vivemos, não podemos esquecer o testemunho humano altíssimo que está a ser dado por todos os cuidadores.

Esses são heróis desta história coletiva. E são milhões que, de forma anónima, e com um extraordinário sentido de abnegação,

mantêm abertas fábricas e serviços, continuam a produção alimentar e de bens indispensáveis, vigilam pela segurança e, claro,

nos hospitais combatem por todos nós na primeiríssima linha.

Enumero três histórias minúsculas no universo de bem e dedicação que, nestes dias tão difíceis, se está também a construir.

No sábado fui à pequena padaria do meu bairro. É o proprietário que atende ao balcão, um senhor dos seus setenta e muitos,

um olhar cheio de cordialidade, um humor sempre a assomar. Vi-o, como o nunca vi, desolado, meditabundo, exausto. 

Perguntei-lhe se a padaria continuaria aberta. E ele confessou que por ele já a teria fechado. Mas depois começa a pensar nos clientes,

nas pessoas que serve há tantos anos, muitas delas idosas como ele: como farão, se não há outra padaria nas redondezas! Outra história lia no jornal.

Uma senhora ligou para o posto da polícia do seu quarteirão, que naturalmente continua aberto, apenas para fazer esta pergunta:

“E vocês como estão?” A terceira é contada, sem palavras, por uma fotografia que mostra os bastidores de um hospital.

Uma enfermeira adormecida com a cabeça em cima de um teclado do computador. Tem os óculos e a máscara colocados no rosto.

Os braços caídos ao longo do corpo, sem nenhum apoio. É uma imagem comovedora, no seu desamparo extremo, porque se percebe tudo.

Há já quem diga que a geração que vive o turbilhão desta pandemia olhará inevitavelmente para a vida de outra maneira.

Esperemos que sim.

Mas que na equação, que porventura espoletará uma mudança de mentalidade, entre não só o poder desconhecido do medo e da urgência,

que nos faz relativizar tanta coisa.

Que saibamos considerar devidamente todas as histórias de amor que estão a ser escritas,

a começar por esta inteira multidão de profissionais e de voluntários que aproximam da nossa experiência hodierna a inesquecível parábola do bom samaritano. 

 

 

AS MÃOS SUSTÊM A ALMA

 

Foi Pascal que escreveu que “as mãos sustêm a alma”.

Hoje precisamos de mãos — mãos religiosas e laicas — que sustenham a alma do mundo.

E que mostrem que a redescoberta do poder da esperança é primeira oração global do século XXI.

 

 

sede 20180223 pc

 

José TOLENTINO MENDONÇA, Redescobrir o Poder da Esperança, in Expresso.

A Revista do Expresso, 2473, 21. 03. 3020, 23-29.